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« Mas o contraste não me esmaga - liberta-me; e a ironia que há nele é sangue meu. O que devera humilhar-me é a minha bandeira, que desfraldo; e o riso com que deveria rir de mim, é um clarim com que saúdo e gero uma alvorada em que me faço.
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A glória nocturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido... E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, e do eremita no retiro, inteirado da substância do Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento do mundo.
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E na mesa do meu quarto absurdo, reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos, da minha estátua recebida por prazeres, e do anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém extático. »
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"Livro do Desassossego"
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(Fernando Pessoa
Composto por Bernardo Soares,
Ajudante de Guarda-livros na cidade de Lisboa)
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(Público 2012-02-24 - Vasco Pulido Valente)
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« Embora com origem na Antiguidade (Grécia?), o Carnaval é uma festa cristã. Os três dias de Carnaval são, ou deveriam ser, dias em que uma vez por ano se suspendem os bons costumes, para ganhar ânimo para o jejum, a penitência e a oração da Quaresma. O Carnaval era, por isso, e para quem podia, normalmente dedicado aos prazeres da carne: à comida, à bebida e ao sexo. As máscaras serviam, de resto, um objectivo prático: esconder ou disfarçar histórias pouco lícitas a que as circunstâncias, com alguma sorte, davam oportunidade. Como seria de esperar, Lutero e Calvino eliminaram esta inexplicável excepção. E também a Igreja tridentina tentou, pelo menos, disciplinar a coisa, reduzindo o número da máscaras autorizadas e deslocando os participantes para a frente da igreja do sítio, para os conservar sob o olho paternal da autoridade.
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De qualquer maneira, apesar destas perseguições, o Carnaval durou. Durou, mas perdeu a sua exuberância e o seu significado religioso. Nada mais triste do que um Carnaval de Lisboa no século XIX. O grande divertimento era atirar ovos podres pela janela ou mesmo despejar urina e excrementos (o célebre "lá vai água) sobre o cidadão incauto. Não existiam marchas e as máscaras começavam a ser raras. Para a aristocracia parece que havia bailes. No meu tempo (1950-55), sobravam ainda serpentinas (um hábito que nunca compreendi), bisnagas, "bombas de cheiro" e, de quando em quando, "estalinhos". Pior: o Carnaval, que fora ao princípio uma festa popular, acabou por se tornar uma "festa" da classe média, que a "classe média" celebrava em casinos ou em cinemas.
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Excepto para os mais velhos, o Carnaval de Lisboa (e suponho que o do Porto) desapareceu rapidamente entre 1960 e 1970. Ficaram os "Carnavais" de província, com carros decorados, "vedetas" que ninguém conhecia e um entusiasmo organizado e quase obrigatório. Não me lembro de ir a nenhum e não conheço ninguém que tivesse ido. Só os feriados sobreviveram: um bom alívio para um Janeiro de trabalho e ressaca. E os portugueses, que já não se lembravam da natureza da festa, começaram a aproveitar para uma viagem ou para umas férias fora. A devoção passava para o descanso e no descanso nem o dr. Cavaco conseguiu tocar sem uma reacção violenta. Agora, Pedro Passos Coelho removeu esse absurdo anacronismo com uma frase. Apesar de alguma desobediência e de alguns resmungos, Portugal não se mexeu. Para o ano nem dá por isso. ».
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(Público 2012-02-24 - Vasco Pulido Valente)
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« Embora com origem na Antiguidade (Grécia?), o Carnaval é uma festa cristã. Os três dias de Carnaval são, ou deveriam ser, dias em que uma vez por ano se suspendem os bons costumes, para ganhar ânimo para o jejum, a penitência e a oração da Quaresma. O Carnaval era, por isso, e para quem podia, normalmente dedicado aos prazeres da carne: à comida, à bebida e ao sexo. As máscaras serviam, de resto, um objectivo prático: esconder ou disfarçar histórias pouco lícitas a que as circunstâncias, com alguma sorte, davam oportunidade. Como seria de esperar, Lutero e Calvino eliminaram esta inexplicável excepção. E também a Igreja tridentina tentou, pelo menos, disciplinar a coisa, reduzindo o número da máscaras autorizadas e deslocando os participantes para a frente da igreja do sítio, para os conservar sob o olho paternal da autoridade.
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De qualquer maneira, apesar destas perseguições, o Carnaval durou. Durou, mas perdeu a sua exuberância e o seu significado religioso. Nada mais triste do que um Carnaval de Lisboa no século XIX. O grande divertimento era atirar ovos podres pela janela ou mesmo despejar urina e excrementos (o célebre "lá vai água) sobre o cidadão incauto. Não existiam marchas e as máscaras começavam a ser raras. Para a aristocracia parece que havia bailes. No meu tempo (1950-55), sobravam ainda serpentinas (um hábito que nunca compreendi), bisnagas, "bombas de cheiro" e, de quando em quando, "estalinhos". Pior: o Carnaval, que fora ao princípio uma festa popular, acabou por se tornar uma "festa" da classe média, que a "classe média" celebrava em casinos ou em cinemas.
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Excepto para os mais velhos, o Carnaval de Lisboa (e suponho que o do Porto) desapareceu rapidamente entre 1960 e 1970. Ficaram os "Carnavais" de província, com carros decorados, "vedetas" que ninguém conhecia e um entusiasmo organizado e quase obrigatório. Não me lembro de ir a nenhum e não conheço ninguém que tivesse ido. Só os feriados sobreviveram: um bom alívio para um Janeiro de trabalho e ressaca. E os portugueses, que já não se lembravam da natureza da festa, começaram a aproveitar para uma viagem ou para umas férias fora. A devoção passava para o descanso e no descanso nem o dr. Cavaco conseguiu tocar sem uma reacção violenta. Agora, Pedro Passos Coelho removeu esse absurdo anacronismo com uma frase. Apesar de alguma desobediência e de alguns resmungos, Portugal não se mexeu. Para o ano nem dá por isso. ».
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